Abro as janelas, tiro o pó da cortina e sento cuidadosamente na cadeira próxima ao móvel de madeira. A brisa morna que lambe meu rosto tem um nome: Tristeza profunda.
Esta, que assim a chamo, é uma hóspede egoísta... Chega muitas vezes sem avisar e me abraça por longos dias (às vezes semanas, meses).
Maliciosa, retém-se nos meus gestos e expressões, apodrecendo minha carne. São lágrimas, são gritos, são clichês poéticos, são pequenas mortes, num movimento de dentro para fora.
E quem me vê sorrindo, com palavras sempre acalentadas de carinhos, não sabe o quanto peno. Minha qualidade é castigo: Cuidar, nunca ser cuidada.
Com isso, há épocas, que quando essa infeliz me acomete, sinto-me como uma pequena criança sem pai nem mãe, esquecida por Deus no meio de um sertão.
Tudo em minha volta seca. E eu, tanta água, me afogo em mim.
Fecho as janelas, junto-me ao pó das cortinas, tentando deixar que os felizes me esqueçam -não por autopiedade, mas por respeitar sintonias- e me quedo parada, sentada na cadeira, esperando um fantasma me soprar alegrias no ouvido e expulsar, quiçá, infeliz visita.
Porém, consciente de que ela sempre voltará... pois é a motriz da minha escrita.
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