sábado, 26 de maio de 2012

Há muitos anos pensou em escrever sobre os monstros de sua infância e adolescência. Muitas vezes confessou às pessoas, embora nunca o bastante. Sentia culpa interna, não pelo passado, mas pelas consequências em sua personalidade no presente.
Tinha um profundo nojo por homens, embora, quisesse ter neles qualquer esperança de proteção física e sentimental. Cada tentativa, caía no abismo da solidão de si mesma. De vez em quando, tentava relacionar-se com mulheres, todavia, faltava-lhe aquela proteção infantil que desejava alcançar.
Nessas horas, se fechava, construía muralhas e quem a visse e não conhecesse seu íntimo, juraria que era a mais gélida de todas as mulheres.
Desde pequena lhe ensinaram que os homens são cruéis, a começar pela tristeza perene de sua própria mãe, abandonada grávida, quase adolescente, por seu pai. A menina cresceu, sabendo que as pessoas vão embora, se for da vontade delas, sem se importar com a dor alheia. Entretanto, gostava de ver repetidamente desenhos de princesas, os quais havia príncipes gentis e comprometidos. Apoiou-se na crença. Aprendeu a esperar.
Como era muito magrela e bruta às vezes, não chamava a atenção dos meninos de sua idade, então, sonhava com bailes e cenas em que ela esperaria, sentada, num canto da festa e, do nada, surgiria um príncipe que iria tirá-la para dançar...
Os anos foram passando, a magrelinha aos nove já demonstrava mais corpo que meninas de quinze. Ao sair na rua, os homens começavam a mexer. Os meninos tinham olhos de curiosidade, embora, não demonstrassem qualquer sentimento sincero.
Aos onze ou doze, não se lembra bem, ao voltar da escola vinha em sua direção um homem alto, manco, com a maior parte da cabeça careca e de compridos fios os que restavam. Ela pressentiu segundos antes algo de errado, foi quando ele se aproximou rapidamente e apertou-lhe o seio com tamanha força, que sentira um pavor mudo. Não conseguiu ter ação.
Não entendeu. Chegou em casa e escondida das vistas dos familiares, chorou. Sentiu-se culpada, envergonhada. Sentiu-se errada. Sentiu-se nada.
(continua...)



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