Depois que me tornei ateia, além da existência de um deus, ficou difícil acreditar na beleza da vida em si. O lado negro, cruel, explorado exaustivamente por mídias sensacionalistas e séries policiais - minhas favoritas - se mostravam como única realidade. Havia em mim um medo generalizado; troquei fantasmas por visões de assassinos reais espreitando-me pelas ruas. Deixei de lado canções que me lembravam o canto de pássaros ou sobre meninas bonitas debruçadas nas janelas para ver seus amores... Deixei de ouvir tudo que era belo e encarei o silêncio feito de chumbo. Perdi, na verdade, a ideia de amor como algo fluido e doce em troca de sentimentos corrosivos. Eu me corroí.
Entretanto, certo dia resolvi respirar com mais calma o cheiro do verde e ouvir meu próprio corpo. Ele palpitava em movimentos que eu não conseguia entender até ouvir a silenciosa sinfonia da vida. Estava, como numa outra atmosfera, preenchida de amor em suas diversas formas. Tudo que era simples me fez sorrir e, pouco a pouco, fui resgatando aquela menina que dançava a beira-mar. Continuava ateia, contudo, não sem crenças. Deus tinha sido substituído pela beleza das coisas, por tudo que era lindo e fazia sentido. De repente, havia encontrado um gostoso equilíbrio e fui costurando, novamente, sonhos.
Hoje posso dizer que vivendo tão serena e plenamente, encontrei a felicidade que há anos buscava.
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