"Agora o obrigava a parar, e em pé diante dele, os traços todos demudados pela violência dos sentimentos que agitavam:
- Perdoa-me, perdoa-me! Oh, como eu te amo!
Ela estava entre os seus braços e, querendo beijá-lo, passava através dele e o repelia com a sua febre, que era gelo, mais fria que gelo. Ele sacudia a cabeça, que não, que não, e ela se debruçava sobre aquele homem que lhe fugia, hesitava um instante com as mãos enclavinhadas, e depois cedendo ao desespero, esbofeteava-o, esbofeteava-o uma, duas, três vezes, e chorava, chorava. E como o homem não cedia - que não, que não - tentava aquecê-lo com seus beijos, como em vida fizera, mas os seus beijos eram gelados e gelavam, eram gelados e doíam.
Aí a grande força oculta no bojo de que ela era uma porta começou a sugar-lhe doce e implacavelmente as formas por um momento humanizadas. Ela se voltava para o fundo do mistério e implorava com gestos que não a arrebentassem, mas inutilmente. Aquele homem era seu e ainda partiria com ela! Que esperassem... Inutilmente, inutilmente. E já aquele torvo esfumaçamento impiedoso lhe diluía as pernas modeladas pelo vento sob o manto, e logo o busto de seios ausentes, borrando-o e o deixando ver através dele, ainda desfocadas, as folhagens das árvores e as luzinhas do parque, quando ela lhe pediu, num último e aflito apelo:
- Vem para mim, amor!
Eduardo sentiu que Anita lhe era retirada para sempre. Nunca mais, depois daquilo, ela voltaria a cruzar seu caminho. Com as suas próprias mãos indignadas tinha fechado a barreira pela qual se atirava, nas noites da sua angústia, para atormentá-lo. Permanecera insepulta no tempo pela força do amor, mas o ódio a que não resistira afinal a destruía. Crispou os lábios ferozmente, o pensamento no trem que urgia apanhar, a Vitoriosa agora descruzando os braços sobre os seios para recebê-lo, e num repelão de raiva, que sacudiu o espectro para trás gritou-lhe:
-Não!
Os olhos de Anita, na face que esmaecia, toldaram-se já não de lágrimas, que as suas órbitas tinham sido misericordiamene esvaziadas de tudo que é humano, mas apenas de nuvens que passavam correndo num temor de tormenta vizinha, e somente as suas mãos, contorcidas na aflição daquela dor sem remédio nem Deus, bateram desamparadas no ar, num derradeiro arranco, e se sumiram dentro da vida."
Presença de Anita - Mário Donato.
quinta-feira, 8 de março de 2007
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Um comentário:
Lindo, amei!
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