Maria acordava todos os dias depois do próprio dia. Recolhia suas promessas e seus corações partidos e ia no escuro da noite caçar diversões baratas.
Sustentava seus vícios e fazia juras secretas, completamente verdadeiras, até o raiar do próximo sol.
Era estudante de letras. Cultivava o hábito da leitura para usar em seu cotidiano e conquistar todo o tipo de gente com sua poesia medíocre. E o pior é que as pessoas gostavam...
Um dia, cansada da vida que tinha, Maria enlouqueceu. Viu-se completamente só, num universo que ela mesma inventara. Quis sumir, mas não podia nem tinha dinheiro para isso. Quis reinventar-se, mas já era velha. Quis morrer, mas já era tarde demais...
Então correu para a praia, à noite, onde ninguém pudesse vê-la... Despiu-se toda. Banhou-se em luar. Mergulhou na fria água para poder purificar-se de todos os seus pecados e de toda vida que levara até então. Voltou à areia e viu pela primeira vez que o mundo era maior que ela mesma (que até então, acreditava que não existia nada além de seu próprio umbigo). Vestiu seu vestido bordado, suas sandálias prateadas e caminhou lentamente para casa.
Acordou no dia seguinte depois do próprio dia. Recolheu suas promessas e corações partidos que vinham da secretária eletrônica. Bebeu uma dose de vodca e seguiu pela noite fria permanecendo em sua própria natureza imutável. E Maria não era heroína, Maria era humana.