domingo, 20 de março de 2011

Doutor, tenho um problema: costumo dilacerar minha própria carne, com as unhas. Começo formando feridas onde ninguém pode ver. Entre os fios de cabelo, no tornozelo, nas costas. Belisco-me até formar pocinhas de sangue. Faço tão bem feito que digo que são picadas de insetos.
Quando ajo assim? Quando minha garganta seca e não consigo dizer o que verdadeiramente sinto, quando minhas pernas não conseguem mais correr. Quando sorrio simpaticamente e todos acreditam no meu afeto.
Por quê? Porque a impotência diante da perfeição me paralisa de tal maneira, que nada mais consigo fazer além de me punir assim. Porque a culpa acumulada no desespero de mim mesmo é maior do que posso expressar. Sei que o senhor nada tem a ver com isso, mas eu precisava desabafar...
Peraí... como assim, o senhor, de fato, nada tem a ver com isso? Não estou aqui para ser tratado?
(nesse momento, começa a ferir-se discretamente)
Aqui não é um consultório médico? O senhor não é psiquiatra?
Como assim, estou no andar errado? Então quer dizer que o senhor é cardiologista?
Tudo bem, desculpe o engano... De qualquer forma, já que o senhor entende de coração, desçamos prum bar que tenho muito a contar sobre o meu.

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