domingo, 17 de novembro de 2013
Faz dois anos, talvez um pouco mais, que pousara os olhos nele. Apesar de frequentarem o mesmo ambiente, nunca tinham percebido a existência um do outro. Ela possuía os cabelos mais compridos que atualmente, usava mais maquiagem e roupas de cigana desleixada. Ele, signo de terra, resmungava pelos cantos dizeres incompreensíveis. Sentados de frente para o outro, a falar banalidades, uma troca de olhares: nasce na menina uma nova paixão platônica. A partir desse dia, o homem de porte elegante, passou a lhe sorrir, coisa rara para seu aparente comportamento. Ele a fitava mais que olhava qualquer outra mulher que passava, enquanto ela, com sua faceirice, brincava de ser admirada. Ao longo do tempo, aquilo nela foi crescendo, ora transbordava ora se contia, mas sempre presente de alguma maneira. Tinha receio quando conversavam, pois não era capaz de encarar aquele rosto. Olhava para baixo e se deparava com a imagem daquelas mãos. Corava. O pavor que ele percebesse qualquer coisa a enlouquecia por dentro, jamais poderia deixar que seu sentimento fosse descoberto. Para sanar a loucura, houve uma pausa, um namoro, que a fez esquecer momentaneamente aquele estranho sujeito que tanto a fascinava. Mas paixões são capciosas e quando rompeu sua relação, pouco tempo depois ressurgiu tudo que guardara para dentro do tapete de sua mente. Que grande tolice, meu deus! Como pode ser possível enamorar-se de alguém que nem se conhece? Sentimento infantil, adolescente. Entretanto, essas coisas são como vermes que nos devoram as entranhas sem se fazer, de pronto, notar. Quando a cigana menos esperava, estavam lá, aquelas mãos -tão admiradas- a segurar-lhe com carinhos e segredos. As bocas que transferiam o batom de lugar, os corpos que começaram a gritar um pelo outro. Que homem era aquele? Por que exercia tamanho fascínio naquela já tão farta dos pretendentes habituais? Sentia-se plenamente preenchida de algo tão bonito que não sabia explicar e notava certa diferença também no comportamento dele. Ao invés de sisudo, passara a sorrir, cantarolar e assobiar por aí, quase não mais reclamava da vida. Floresciam.
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