O
caminhante noturno percorre o caminho iluminado pelos rastros da lua inflamada; satélite natural, mulher que menstrua em seu ciclo
irregular. Ele pisa nas areias de uma praia repleta de penumbras de
reflexos avermelhados. Em seu momento de sede e pausa, repousa a cabeça
sobre os grãos de areias, enquanto seus olhos fixam-se nas constelações.
Queria ele estar em outro lugar, pois seu ímpeto
andarilho não é capaz de engendrar raízes. Por um longo momento, seus
pensamentos são desconexos e ele fita a indecência daquela lua, plena,
vermelha, quase ao revelar seu cio. Neste momento, o andarilho sorri ao
perceber que ele também é aquela lua, e todo o universo, de certa
maneira, está em si mesmo. Na fuga desesperada para o autoconhecimento, não percebera que ele, afastado das metáforas de gênero ou
estigmas sociais, ele mesmo era a Lua, que de tão intensa, sangrava.
O caminhante noturno agora é apenas um vulto que reside no encarar de
nossas próprias pupilas, quando estamos sós, em frente a um grande
espelho.
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