domingo, 24 de fevereiro de 2013

Certo dia ganhara uma sanfona e assim fundiram-se em amálgama no primeiro contato. Mesmo sem saber tocar e, a tal sendo de poucos recursos, apaixonara-se pelos sons produzidos. Fechava os olhos e deixava guiar-se pela melodia obtusa que saía de seus dedos. Era quase um transe aquela cumplicidade que surgia. Lembrou-se de um filme que vira há pouco tempo sobre uma muda, que assim não se sentia por conta do piano que tocava. Compreendera: sua alma agora também ganhara voz através daquele estranho instrumento. Pela forma em que o fole esticava-se e voltava ao mesmo local, percebia neste movimento o seu próprio respirar. Enquanto tocava, esquecia tudo que lhe doía. Podia se dizer que até mesmo a própria existência era esquecida. Não havia mais palavras, pois estas já não eram necessárias. Somente o som que vinha de si.

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