domingo, 28 de outubro de 2012

A caneta torna-se inimiga. Aflição pavorosa, medonha. Os dedos que contraem e tremem, repletos de saudade e angústia, relembram os dias entre os seus cabelos. Mãos saudosas do cafuné que fazia. As coxas que recordam a cabeça pousada, sonolenta. Olhos que guardam a lembrança de todos os movimentos, expressões, olhares. O medo que invade a escuridão solitária da madrugada com abismos. Debruço-me no parapeito, lanço-me inteiramente. O amor é voar sem asas. Eu as abandonaria, se eu tivesse. Doei, para a eternidade cada célula, cada neurônio e se houver, minha alma. O que sinto me paralisa da forma mais bonita que há. A escrita sai torta, atrapalhada, esquecendo-se da estética, do correto, para ser livre e sincera. Ao deitar, seu sorriso. Ao levantar, seu sorriso. Os ouvidos imaginam quase sempre a gargalhada. Como é gostosa a gargalhada! Só quem sentiu o que experimento sabe o que é querer sempre a espontaneidade da alegria alheia. A alegria. Por outro lado, ao menor sinal de descontentamento, é como se pusessem bigornas no meu lado de dentro. Sinto frio e não durmo. Os braços sentem a falta do abraço. Se acreditasse em rezas, faria uma oração ao tempo para que ele desse a sensação de maior rapidez para que possa sentir tudo isso novamente. Sou paciente, eu sei. Mas quando o querer é em demasia a mente vai relembrando tudo minuciosamente e tudo aumenta. Por outro lado, o regresso esperado torna-se como Natal para crianças. E quando ocorrer, serei eu plena, preenchida da mais radiante alegria e com olhos talvez marejados de tanta emoção. Como as personagens que aguardam a chegada de seus homens vindos do mar e com o sentir recíproco, percebem o quão a dor da espera é, no fundo, nada.

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