sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vestiu seu único jeans surrado, uma blusa masculina femininamente semi-aberta e calçou suas botas. Pegou o canivete, recém-ganhado, colocou no bolso. Abriu uma das gavetinhas de seu quarto e retirou o escapulário dado por um noviço que largara a batina. "Pela graça sois salvo" eram as palavras escritas. Riu. Não acreditava mais nessas coisas de Deus e crença, mas na dúvida, resolvera usar. Tinha até, não escondia, certa afeição pelo objeto, mesmo trazendo imagens sem qualquer significado de Maria e Jesus.
Por último, o colete. Olhou-se no espelho. Gostava. Ela, por ser demais mulher e com o corpo cheio de faceirice, gostava de se vestir com durezas masculinas. Sentia-se dessa forma mais forte. Apreciava. Resolveu não dizer nada a ninguém e comprou passagem para Minas. Chegando lá, com ares de cigana e sem muito dinheiro, aproveitava de seus encantos fingindo ler mãos. Com isso, ganhava uma comida aqui, uma água acolá. Um dia, certo senhor fascinado por sua estranha beleza (ou compadecido de sua vida errante) deu-lhe um pangaré, mas advertiu: O diabo se esconde em todas as faces, menina, mas os olhos denunciam.
Sem entender motivo de tais palavras, partiu a galope. Sentia saudade de andar a cavalo, sentir cheiro de mato, catar caminhos. Vez ou outra, tirava cochilo em cima de árvore e se figurava Diadorim. Fazia trilhas, procurava águas geladas e de efeito dormente de rio, se entregava. Fugia das picadas de mosquitos e nesse momento, quase pensava em voltar... Afinal, para onde é que ia?
Passava de cidade em cidade e para divertir-se apostava com os varões que bebia cachaça sem fazer careta. Duvidavam que moça faria isso. Surpreendia. Com o dinheiro pouco das apostas, pagava a estadia em alguma pensão. Mas isso só quando gentis não lhe arranjavam espaço em suas casas, por conta da boa prosa que trazia. Uma noite ou duas. Não demorava mais que isso no mesmo lugar. Seu desejo era fuga, talvez de si mesma ou do urbano que lhe grudara feito carrapato. No entanto, sem paciência para análises psicológicas, cavalgava. Gostava de conhecer os sotaques, arrastar o pé na poeira das canções desafinadas, vivenciar cultura.
Uma vez fora para certo vilarejo, o qual não havia luz elétrica, só candeeiro e lampião. Tinha sabor de infância. Observava a população, toda tão simples que comovia. As rendeiras eram firmes, com seus dedos calejados, no entanto, se derretiam feito suspiro ao falar de seus homens. "Ódio é costura mal feita e tudo logo se desfaz. Já o amor, não... O amor tece bordado!", diziam. Bonito, pensou. Amarrou ali uma rede que ganhara de algum hippie e deitou-se com seus silêncios.
Gostava de ver a mudança do céu e reparar no segundo que muda tudo. A vida sendo composta de frações de segundos. Cada um era precioso.
(continua..)

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