sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Metrô

Havia uma senhora, de expressões firmes e sorriso incomum. Não pude precisar sua idade, talvez mais de oitenta anos ou talvez seja exagero de minha parte por focar somente na leitura de suas rugas e não na quantidade de tempo passado por ali. Todos os assentos estavam ocupados e ela trazia em seus braços, com carinhos e cuidados, um homem. Permiti que ela ficasse exatamente onde eu estava que, embora em pé,  havia uma quantidade menor de pessoas e local para se segurar. Agradecida, sorriu e disse com delicadeza: Se perder o equilíbrio  se apoia em mim. Sorri, cheia de gratidão, porém não poderia jamais aceitar tal oferta.
Fiquei ao seu lado, observando cada expressão e tomando o devido cuidado para não assustá-la (ou para que ela não percebesse). Reparava em suas mãos sobre o homem e seu jeito de delicadamente segurá-lo e acariciá-lo. Imaginei o tipo de relação eles deveriam ter... Não... Não podiam ser um casal, apesar da cumplicidade silenciosa dos gestos. Eram diferentes, talvez mãe e filho? Mas que homem daquela idade aceitaria ser tão paparicado e tratado desta forma? Durante uns segundos, ela me sorria de modo terno e eu podia sentir em seus olhos um peso pertencente ao pó dos séculos.
Tentei, então, voltar minha atenção a aquele homem para que pudesse compreender mais o que esse olhar representava. Fui tola por não ter percebido antes... Ele devia ter alguma questão cognitiva, pois possuía traquejos incomuns se comparado aos outros, denominados normais. Sua fala era moderadamente atrasada e suas mãos se movimentavam de forma não-lógica para quem está do lado de fora.
Ela lhe pedia para pegar um telefone em seu bolso, dizendo que tinha de ligar para casa. Ele demorava para executar a tarefa. Percebi nela uma paciência materna. Se não era sua mãe, devia ser sua mãe. Não restava outra opção.
Uma cadeira foi vaga, mas somente após muita insistência a senhora aceitou. Ela nunca saberá, mas suas expressões de afeto com aquele que não sei o parentesco (se é que tinha, de fato, algum) ou comigo por ter-lhe cedido o lugar, me comoveram.

Com um sorriso leve no rosto, saltei na minha estação.

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