quarta-feira, 17 de abril de 2013

Eram dois, homem e mulher. Talvez irmãos, amantes, amigos ou quem sabe, desconhecidos, unidos em momento tão semelhante. Não sei que mal fizeram para ter como destino morte tão cruel, se é que praticaram ato algum. Tiveram seus braços amarrados, lançados nas águas do infinito azul, provavelmente antes mesmo do grande fim. Seus corpos, disseram, foram amarrados numa pedra para repousarem no fundo da areia de um mar urbano, enquanto os membros jaziam decepados flutuando até chegar em Ipanema. Eram dois, feito um somente. Eram nada agora. Que história teriam? Por quantas agruras teriam passado? Dedos esmaltados, delicados de mulher unidos às mãos ásperas de homem. Devolvidos pelas ondas somente partes. Quem sentirá falta ou chorará por eles? Que mães vivas, se houver, rezaram suas missas? Pouco ligo, na verdade para religiosidades fúnebres, mas posso imaginar tamanha agonia. Enquanto observo o mar, distante, percebo que além da poesia, a vida reserva mistérios muito mais tenebrosos que cabem ao meu sonhar-borboleta. Dissipada a treva, todos naquele bairro dormem, como se a rotina fosse somente a mecânica que embalasse os dias. Quedo-me na insônia.

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