quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O chicote estala, resvala no chão. Ao longe, vejo o corpo da mulher tão franzina, em carne viva. É bruxa, chicoteia! Filha do encontro do sol com a lua, não serve para esse mundo. Anda, chicoteia! Quero ver o seu corpo em postas e o cansaço tomar conta de sua face. Quero ver seu vômito em lágrimas. Suas mãos tremem e não é frio. Paúra. Para onde foi agora a arrogância, a ironia? Nos seus olhos, antes hipnóticos, agora é dor e fragilidade. Chicoteia, chicoteia! Deixa cobrir suas chagas com sal e areia, deixa depois que ela queime. Isso, queimar! Todo sadismo é pouco para ela... Feiticeira, não ria! Teu riso prende o mundo, teus gestos seduzem os fracos de alma e de corpo. Não, não cante! Voz dos demônios, dos seres ruins de todos os mares! Amigo, não a ouça. Não a ouça. Veja, mesmo ensanguentada, ela levanta, bate as mãos em palma, gira lentamente. Ainda torturada é bonita, mas de beleza que não vê qualquer dia... Ela é dona de uma beleza mística, cigana, com gestos infernais. Dá-me o chicote e permita que eu mesmo afaste esse demônio. De repente, cansada de chorar, ela ergue-se numa força sobre-humana e dança... e ri! Resvalo ainda mais forte o chicote e agora ela ri, gargalha a maldita! Faço fogueira para vê-la queimar e ela dança sobre as brasas. Parece não sentir mais a dor nem o fogo, apenas dança sorrindo. Seus olhos antes fracos, reluzem o brilho das chamas. Meu chicote, cansado, vai ficando mais fraco sem eu perceber. Vou sendo arrastado pela magia da bruxa que põe-me feitiço. Levanto a bandeira branca. Ajoelho-me diante dela, peço-lhe desculpa por tamanha inquisição e como vingança... ela pede-me um beijo e morre em meus braços.

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