sábado, 10 de novembro de 2012

O meu lugar é a noite escura. Se o céu estiver com resquício de chuva ou for lua nova, aí faço morada. Sou bicho homem, sem rumo e pedras no caminho. Canso com as conversas sem graça dos outros, prefiro minha própria companhia. Ando no silêncio, sento em qualquer canto e aprecio boa bebida. Ruim também, sendo sincero. Cachaça e cigarro: companhia. Às vezes calha de vir mendigo bêbado falar comigo. Se nos olhos houver tristeza, dou o mindinho de prosa. De resto prefiro a falta dos verbos. Não sou bom lutador, mas tenho sede dos confrontos e, por precaução, navalha nos bolsos. Dia desses, vindo para minha casa, vi um gato preto no caminho. Cruzou-me a andada um gato, em seu passo lento, todo negro, com os olhos da cor de pedra âmbar. Dizem que não é pedra, mas se enfeita colar de mulher e não é concha, pedra é.  Se fosse dado a superstições femininas, certamente interpretaria como algum sinal de augúrio, contudo, vi como reflexo de mim mesmo aquele felino tão solto pelas ruas. Éramos iguais de certa forma. Também sou negro de olhos amarelados. As feiticeiras da rua sempre me disseram que parecia olhos do diabo. Nunca me liguei nisso. Mulato arredio que sou, quero somente as preocupações da labuta e das folgas. Chateação deixo para a velhice, se ela chegar. Na minha terra, todos morrem cedo. De doença ou de amor, que para muitos também é doença. Um compadre que vinha das bandas da Grécia, disse-me uma vez que paixão na terra dele é a mesma palavra para doença. Pus fé, não. Tal sentimento para mim, é como cair no mesmo riacho e nunca enjoar, mesmo quando está muito frio e congela as pernas. Paixão esquenta o umbigo, o amor congela a espinha. Escreva aí, seu moço, tudo o que digo. Os pensamentos solitários fazem um livro.

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